Elon Musk anunciou o “American Party”, mas o projeto tem menos cara de partido e mais de plataforma pessoal. Será que estamos diante de uma política feita por marcas — e não por ideias? Com seguidores leais e discurso direto, o CEO da Tesla pode estar redesenhando a lógica do poder nos EUA.
🔥 A briga que virou bandeira
Musk anunciou a criação do “American Party” dois dias após Donald Trump assinar o chamado “Big, Beautiful Bill” — pacote bilionário que aumenta o poder do governo sobre empresas de tecnologia e reforça a vigilância fiscal. Para Musk, a proposta é “um desastre estratégico” que joga a democracia estadunidense na direção de um sistema de partido único.
O bilionário já havia sinalizado que criaria um partido caso a medida fosse aprovada, e cumpriu a promessa com uma publicação no X: “Vocês pediram um novo partido e agora têm. O American Party nasce para devolver a liberdade ao povo”. No mesmo post, ele criticou o projeto por aumentar a dívida do país e permitir “gasto público sem freio e sem vergonha”.
💣 De aliados a rivais
O dono da rede social X foi um dos maiores doadores da campanha de Donald Trump em 2024, investindo US$ 288 milhões em apoio ao então candidato republicano. Como reconhecimento, Trump nomeou-o “chefe de facto” do Departamento de Eficiência Governamental (DOGE), iniciativa criada para reduzir gastos e burocracia federais. Musk serviu como conselheiro sênior e liderou o DOGE por 130 dias, até renunciar em 28 de maio de 2025
Durante sua passagem, Musk afirmou que o DOGE gerou “economias trilionárias”, mas análises independentes contestam esses números e criticam demissões em massa e cortes controversos, como nos programas da USAID.
Por outro lado, o presidente dos EUA teceu elogios públicos, classificando Musk como um agente de “colossal mudança”. No início, o bilionário até ressaltou que Trump seria uma escolha melhor que Kamala Harris para lidar com os gastos públicos.
Mas essa aliança desandou após a chegada do “Big, Beautiful Bill”. Musk criticou o projeto como irresponsável, afirmando que Trump estava minando o trabalho do DOGE. A tensão cresceu quando o republicano o acusou de ter “sumido do rumo” e responsabilizou Musk pela queda de subsídios para veículos elétricos.
A escalada do conflito contou com ameaças. Trump disse que poderia revogar contratos federais de Musk e até deportá-lo, tornando o clima político explosivo. Musk, por sua vez, respondeu em tom irônico no X:
“É muito tentador escalar isso. Muito, muito tentador. Mas vou me conter — por enquanto”.
O rompimento é completo: de estrategistas e aliados leais, Trump e Musk viraram adversários. A criação do “American Party” surge como parte da retaliação de Musk — e uma reação ao que considera “traição política” .
🧑💼 Política ou performance? O fenômeno da persona‑partido
Elon Musk tem construído poder político mesmo sem cargo formal ou filiação partidária — e o “American Party” mostra isso perfeitamente. A ideia se assemelha mais a uma estratégia de marca pessoal com alcance político do que a um partido com bases ou ideologias consolidadas.
Collin Anderson, professor de ciência política da Universidade de Buffalo, destaca: “Mesmo que um novo partido não despontasse, Musk ainda tem várias formas de influenciar eleições”.
Com mais de 220 milhões de seguidores no X, Musk transforma cada postagem num megafone político instantâneo.
O Washington Post observa que ele “mobilizou sua vasta base nas redes para atacar o Big Beautiful Bill e financiar candidatos alternativos”. Ou seja: sua performance pública vira capital político.
O American Party foi posicionado como um canal direto aos “80% no meio”, segundo Musk. Ainda assim, até agora, não há plataforma definida além de temas amplos como liberdade econômica, menos regulação e liberdade de expressão — o que lembra mais slogans de campanha do que políticas concretas.
Esse movimento se encaixa na definição de populismo de marca: personalista, centrado na figura de massa, com promessas emocionais (“devolver a liberdade ao povo”) em vez de propostas estruturadas. A vitória da “persona” se sobrepõe ao partido — e isso é mais marketing do que política.
Entre exemplos desse fenômeno estão:
- Seguidores engajados no X, que repassam cada declaração e elevam o alcance imediato.
- Discursos polêmicos e polarizadores, voltados a angariar adesão emocional, não debate racional.
- Promessas estilo “para o povo”, sem detalhamento prático.
- Memes e virais, usados para sustentar o marketing político.
📲 Quando política vira show: o modelo Musk e seus paralelos
A lógica do “American Party” não é inédita. O bilionário segue um caminho trilhado por outros líderes que transformaram suas figuras em marcas políticas, driblando partidos tradicionais e apostando na comunicação direta com o público.
Donald Trump é o caso mais próximo. Sua ascensão em 2016 foi marcada pelo uso intenso do X, a rejeição ao establishment político e uma base fiel que via nele não um político, mas um símbolo.
“Trump criou um movimento. Não é o Partido Republicano, é o Partido Trump”, disse na época o estrategista Steve Bannon. Mesmo quando sofreu derrotas institucionais, manteve influência com frases de impacto, polarização e apelo emocional — fórmula que Musk agora parece adaptar à sua própria linguagem.
Outro exemplo é Nayib Bukele, presidente de El Salvador. Jovem (para um presidente), com forte presença em redes sociais, Bukele rompeu com os partidos tradicionais e venceu as eleições com um discurso anticorrupção e populista.
Governando com aprovação, ele se refere a si mesmo como “o ditador mais legal do mundo” em tom de deboche — enquanto centraliza o poder, ignora críticas internacionais e se comunica quase exclusivamente pelo X.
Assim como Musk, tanto Trump quanto Bukele apostaram em estilo e performance como ferramentas políticas. Eles constroem narrativas rápidas, memes, slogans e confrontos públicos que viralizam — e moldam a opinião pública mais do que propostas técnicas.
O risco, segundo estudiosos como Yascha Mounk e Pippa Norris, está em transformar o debate político em entretenimento de alta voltagem, onde a fidelidade ao personagem importa mais do que os resultados reais.
📬 E no fim, o partido é só o Musk mesmo
O “American Party” pode até ter nome de partido, discurso de renovação e promessas genéricas de “liberdade”. Mas, na prática, tudo gira em torno de uma figura só. Elon Musk não está apenas tentando entrar no jogo político — está tentando redesenhar as regras à sua imagem.
Enquanto os detalhes sobre planos, estrutura e propostas seguem vagos, o que já está claro é o modelo: comunicação direta, guerra de narrativas, culto à personalidade e uso de redes como palco de decisões públicas. Resta saber se os eleitores vão comprar a ideia — ou se esse será só mais um experimento a céu aberto do bilionário mais volátil da era digital.
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