Altcoins estagnadas? Entenda por que o mercado travou

Altcoins estagnadas Entenda por que o mercado travou
Imagem destaque: ChatGPT

As altcoins bateram no teto? Guy Young, fundador da Ethena Labs, acredita que o dinheiro nativo do mercado cripto já não tem força para levar a indústria além dos picos de 2021. Segundo o empresário, só sobreviverão os tokens que ganharem aval de investidores institucionais — mas será que essa visão faz sentido?

Antes de entender o argumento de Young, é preciso contextualizar um conceito que vem ganhando força nas discussões sobre o futuro do mercado: TradFi, abreviação de Traditional Finance (Finanças Tradicionais).

Esse termo é usado para se referir ao sistema financeiro convencional — bancos, corretoras, fundos de investimento e empresas reguladas — em contraste com o ecossistema nativo cripto (DeFi, tokens, exchanges descentralizadas, etc.).

Nos últimos dois anos, a aproximação entre TradFi e cripto deixou de ser apenas narrativa. Fundos tradicionais começaram a investir em stablecoins, tokens lastreados em ativos reais (Real World Assets) e soluções tokenizadas com supervisão regulatória. A base é simples: TradFi exige transparência, receita, governança e risco controlado. Diferente da lógica especulativa que ainda move a maioria das altcoins.

A tese de Guy Young

Guy Young, fundador da Ethena Labs, publicou um longo desabafo. Seu ponto central é que o capital cripto nativo pode ter secado. Segundo ele, esse tipo de dinheiro já não é capaz de elevar os preços das altcoins como no ciclo passado.

Para sustentar a ideia, ele compara os picos de capitalização das altcoins em dois ciclos:

  • Quarto trimestre de 2021
  • Quarto trimestre de 2024

Em ambos, o valor parou em torno de US$ 1,2 trilhão — mesmo após ajuste pela inflação. A leitura de Young é que esse pode ser o “teto psicológico” global que os investidores de varejo estão dispostos a pagar por tokens sem fundamentos.

Tokens de ar x tokens com selo TradFi

Young argumenta que a nova fase do mercado vai separar tokens vazios de tokens com utilidade real. E aqui entra o contraste que ele propõe: os projetos que conseguirem atrair capital da TradFi podem continuar crescendo, enquanto o resto deve minguar.

Mas o que diferencia um token que chama a atenção da TradFi?

Segundo relatórios da Franklin Templeton e da Galaxy Digital, investidores institucionais buscam projetos que geram receita real ou fluxo de caixa consistente, como protocolos que cobram taxas sobre uso ou oferecem serviços estruturados — caso de algumas stablecoins e plataformas de crédito cripto.

Outro ponto decisivo é o produto funcional, ou seja, que já tenha utilidade prática e seja usado por pessoas de verdade, não apenas especulado em exchanges. A governança transparente, com estrutura jurídica clara e relação direta com reguladores, também pesa muito na análise de risco.

Por fim, a TradFi evita tokens com alta exposição a manipulações, como aqueles com liquidez concentrada em poucas carteiras ou com emissão sem controle. A previsibilidade e o compliance contam mais do que a hype.

Exemplos que já despertaram interesse TradFi

  1. Ondo Finance (ONDO): Token que representa acesso a T-Bills tokenizados e produtos de renda fixa regulada. É negociado na Coinbase e teve aporte de empresas tradicionais.
  2. Maple Finance (MPL): Protocolo de crédito corporativo cripto-nativo que atende a fundos e empresas — com estrutura de compliance e auditoria.
  3. USDTb via Anchorage: A Ethena, inclusive, usou a Anchorage Digital, banco custodiado nos EUA, para garantir conformidade do seu novo dólar digital (USDTb), tentando se enquadrar na GENIUS Act, nova regulação estadunidense.

Argumentos favoráveis de Young — e os riscos tangíveis da ENA

Young defende que o futuro do ecossistema cripto depende de tokens que ofereçam receita sustentável ou produtos com uso real. Ele aponta que tokens fondeados em stablecoins e protocolos de crédito têm chance real de atrair investidores da TradFi. Por isso, escolheu ENA como a solução de ponte entre o ecossistema cripto e o capital institucional.

Ele também faz uma autocrítica sobre os erros da Ethena na estrutura com fundos de VC — apontando que grande parte do ENA foi alocada para capital privado e só passa por desbloqueios escorados por vesting rígido. Essa expiação pública serve como lição de transparência da própria empresa.

Mas mesmo com o controle anunciado pela equipe, o calendário de desbloqueios do ENA ainda não é um dos melhores.

  • A estrutura de vesting prevê cliff de 1 ano, com liberação apenas após esse período e vesting linear por até três anos para investidores e equipe.
  • Mesmo assim, já foram liberados 42,36% do total de ENA, o que equivale a uma oferta circulante de ~6,35 bilhões de tokens até hoje.
  • Um dos maiores eventos: desbloqueio de 2,07 bilhões de tokens, avaliado em US$ 932 milhões, correspondendo a 66,19% da oferta total em circulação durante a semana de março de 2025.
  • Mais recente: evento de 40,63 milhões de ENA liberados em 2 de julho, representando ~0,7% da oferta e gerando queda de 20% no preço nos dias seguintes.

Conforme o cronograma de vesting até 2028, a Ethena continua liberando tokens mensalmente. O próximo grande desbloqueio está programado para 2 de agosto de 2025, quando 94,2 milhões de ENA (~0,63% da oferta total) serão colocados no mercado a um valor estimado de US$ 53,7 milhões.

Para equilibrar a situação, a StablecoinX, subsidiária da Ethena, iniciou um programa de recompra de ENA de US$ 260 milhões, usando recursos captados em público com o objetivo de retirar parte da oferta do mercado aberto. Outros US$ 60 milhões em ENA continuam bloqueados como reserva, com veto do conselho para venda futura.

💣 Casos que escancaram a fragilidade das altcoins

O argumento de Young sobre o esgotamento do capital cripto e a seleção natural entre tokens encontra respaldo em episódios do mercado. Um que posso citar é o colapso do token Mantra (OM), que perdeu 90% do valor em poucas horas em abril de 2025.

Um conjunto clássico de falhas contribuiu para essa queda alta concentração de oferta, falta de liquidez real e uma base de compradores incapaz de absorver a pressão de venda. O crash foi causado pela liberação repentina de grandes volumes em um mercado que já mostrava sinais de exaustão.

Outras plataformas, como a CryptoSlate e a NFT Evening, reforçaram que o OM estava altamente exposto a carteiras concentradas, muitas delas de early investors e entidades com pouca transparência — o que fez com que o desbloqueio programado se tornasse um gatilho para o pânico.

Esse não é um caso isolado. Projetos com emissão agressiva e pouca demanda orgânica seguem vulneráveis a colapsos-relâmpago. Sem uso real, rede de usuários ou fluxo de receita que justifique a valorização, o que resta é um jogo de liquidez — e a liquidez some rápido quando a confiança desaparece.

⚠️ Riscos e críticas ao modelo da própria Ethena

Embora Young tenha se posicionado de forma crítica em relação ao mercado, o próprio modelo da Ethena também levanta questionamentos — tanto técnicos quanto estruturais.

O protocolo é conhecido pela estratégia delta-neutral do USDe, stablecoin sintética que tenta manter paridade com o dólar sem lastro em ativos tradicionais. Em vez disso, ela utiliza posições alavancadas em derivativos para equilibrar a volatilidade. O conceito é sofisticado, mas carrega ameaças.

Segundo análise do Cointelegraph, o maior risco está nos funding rates negativos. Quando o custo de manter posições vendidas ultrapassa o rendimento projetado, o protocolo precisa arcar com perdas para manter a paridade — o que pode gerar déficit e comprometer a confiança na altcoin. 

Além disso, a operação depende fortemente de plataformas centralizadas de derivativos e custodiantes terceiros, o que reduz a resiliência do sistema em ambientes hostis.

Outro ponto diz respeito à escalabilidade. A CryptoSlate aponta que, embora a Ethena tenha ganhado tração rapidamente, seu modelo ainda depende de condições muito específicas para funcionar — como demanda constante por stablecoins sintéticas e ausência de grandes choques macroeconômicos. Em ciclos de bear market, essa estrutura pode ficar mais exposta do que se imagina.

A empresa também enfrenta pressões regulatórias. Para emitir o USDTb, stablecoin de dólar tokenizado lastreado por ativos, a Ethena precisou realizar uma parceria com o banco custodiante Anchorage, em uma tentativa de se adequar ao GENIUS Act, legislação estadunidense voltada à regulação de stablecoins. Na Europa, o MiCA (Markets in Crypto-Assets Regulation) pode impor barreiras adicionais ao modelo, exigindo reservas mais robustas e clareza jurídica.

Mesmo com a narrativa de token “com respaldo TradFi”, a Ethena ainda opera em um território frágil — entre o desejo de institucionalização e as limitações de um ecossistema que ainda depende de estruturas centralizadas, liquidez externa e timing perfeito.

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